sábado, 6 de dezembro de 2008

Escrever

Porque escrever é tão difícil? Reformulo: porque assumir um compromisso para escrever é tão difícil para mim?
Escrevo desde pequeno (como toda a gente), conto histórias a mim próprio e a outros desde que me conheço (OK, minto, porque a minha personalidade não me deixa assentar em características padrão e constantes que me levem a concluir que me conheço).
Porém... continuo a resistir a este chamado. Talvez por vergonha, por pensar que a escrita e o que escrevo tem de ser perfeito, apesar de a minha profissão nestes últimos oito anos ser à base da escrita.
Em várias folhas soltas, de guardanapos, de envelopes, de páginas de cadernos e de blocos de notas (para não falar na imensidão da minha cabeça) e até algumas experiências goradas de blogues (Comunidade das Cinzas, versão Sapo e em escrita automática, e Pai em Casa), espraiei as minhas dúvidas, as minhas inspirações e os meus desejos.
Nas páginas das revistas, jornais e sites para os quais trabalhei escrevi notícias, críticas, reportagens, especiais, editoriais, artigos de fundo, opiniões,etc, etc e etc... Páginas e páginas de bom, de mau, material. Uns inspirados, outros concisos e algumas vergonhas, mas tudo parte de uma profissão e de uma aprendizagem.
Confesso que me cansei desse tipo de escrita ao metro, por encomenda. A pressão, o stress, a ditadura dos objectivos e dos prazos, extraem o tutano da nossa criatividade, deixando-nos com fórmulas e estruturas que nos aguentam em alturas de maior correria.
A qualidade acaba por ser uma sorte, um bónus caído de um esforço enorme à custa da vida familiar e pessoal. A profissão da escrita esgota-nos, expreme-nos e leva-nos à loucura quando não correspondemos às suas exigências ou quando... paramos.
O projecto onde estou envolvido é diferente. Depois dos 30 descobri que até dou para vendas e que me ofende intelectualmente o trabalho repetitivo de introdução de dados num backoffice de um site (sem ofensa para quem tem de fazer este tipo de trabalho, claro. Uma pessoa tem de se desenrascar como pode).
Falta o desafio e o estímulo de querer sempre melhorar a maneira como se escreve, o processo de escrita e a estimular a criatividade. No fundo, escrever é pensar e agora que não escrevo habitualmente, sinto-lhe a falta, sinto-lhe a sede...
Poderia escrever no caderno que sempre me acompanha e com a caneta de tinta permanente que me fez redescobrir o gozo de escrever à mão. Porém, aquela urgência de querer escrever tudo perfeito à primeira afoga-me logo no momento em que penso escrever.
A resistência (versão Steven Pressfield, em A Guerra da Arte) ocupa todas as posições livres das minhas tropas, introduz um espião nas minhas fileiras e dissuade-me a explorar melhor a ideia que acabei de ter.
Graças a isso não penso, não discorro, não vivo. Nesses momentos o meu coração deixa de bater e entrega o seu trabalho ao acaso. A minha mente atordoa-se com uma qualquercoisamina e deixa de se preocupar. A infelicidade cresce em mim.
Nesta dor sinto-me só. Nesta luta penso que ninguém sofre o mesmo que eu. Mas quando abro o Diário de Etty Hillesum, vejo que há outros que sentiram o mesmo, só faltava o impulso adequado.
Começo hoje aqui um blogue que espero ter um caminho diferente e mais longo que as minhas antecedentes experiências. Melhor: começo aqui um verdadeiro blogue sobre escrita, os seus dramas e alegrias, com poemas e desvarios, assim como algumas dicas essenciais aprendidas com a experiência e com várias leituras.
Começo aqui hoje o meu terceiro blogue em que recupero este nome capturado num poema do poeta surrealista António Maria Lisboa, do qual não me lembro o nome, nem o encontro na Internet (eu sei que existe um livro da Assírio e Alvim, mas não o cheguei a comprar... :-( ).
Começo aqui hoje uma longa aventura pelo mundo que me fascina e que agora vai-se revelar perante a minha caminhada.

1 comentário:

  1. Oh! Gostei tanto deste teu recomeço...
    Revejo-te em todas as palavras. Em algumas expressões (especialmente bem conseguidas) existe toda a magia e brilho da vontade de querer mais.
    Abre a tua gaveta... deixa viver palavras aar prisionadas, até agora, nessa vergonha e nesse receio. Liberta-as! Afoga agora o que não tem de saber nadar em ti!
    Segue a tua estrela...
    Segue a tua vontade...
    Delicia-te com o sonho mesmo na ponta dos teus dedos.
    bj gmt F.

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