A escrita tem duas faces: a útil e a do prazer. Um pouco como a fábula da formiga e da cigarra.
De um lado está a formiga, metódica, rotineira e com uma obrigação perante o resto da comunidade. Um pouco como os e-mails, os ofícios, as actas, os memorandos, os artigos, as notícias e as newsletters. Textos em que nos é dado um prazo obrigatório para cumprir, em que se segue um processo pré-estabelecido e que se acaba por encaixar numa estrutura pré-definida. Aqui a urgência e a clareza superam o tempo de leitura do leitor e a complexidade da comunicação.
A formiga sente essa pressa e a necessidade de se movimentar objectivamente. Um dia de Sol após uma semana de chuvas tem de ser suficiente para limpar o formigueiro e procurar comida para armazenar.
No outro lado temos a cigarra, sonhadora, realizada e dedicada. Os poemas, os romances, os guiões surgem a partir do sonho do escritor, de uma inspiração (seja uma sequência de pensamentos ou o sopro da nossa musa). A ideia realiza-se através do acto físico da escrita, preenche a pessoa à medida que escreve, nutre uma necessidade básica do interlocutor. Porém, é exigente e "obriga" o escritor a dedicar-se.
A cigarra pode não amealhar para o futuro, mas na sua alegria constante e na sua necessidade em partilhar a sua arte anima as formigas que trabalham e entretém-nas no seu descanso.
No fundo, ambas necessitam uma da outra. Só o equilíbrio entre a escrita útil e a do prazer pode realizar completamente um escritor. A formiga disciplina a cigarra e esta última inspira a primeira.
Por exemplo, uma notícia pode parecer, à partida, uma coisa repetitiva, pois é transmitida por diversos órgãos de informação. Mas aí a cigarra pode ajudar a formiga, ao procurar uma diferença no quotidiano (nem que seja ela a provocar, ao criar um artigo a partir de um pormenor), na inclusão de um fragmento único (como uma descrição ou uma perspectiva diferente de um assunto já muito batido).
Outro exemplo é a necessidade de se criar um hábito e uma rotina para se poder criar uma obra como um romance. Diversos escritores afirmaram a importância de se sentarem frente a uma folha em branco, à mesma hora, todos os dias. No fundo, este ritual dá segurança à cigarra, dá-lhe uma base psicológica para poder criar.
Quando olho para escrita, relembro-me sempre de uns velhos desenhos animados onde a cigarra tocava o seu violino para as formigas que dançavam ao som da sua música. Quero acreditar nessa imagem, em que ambas comungam do mesmo ritmo, cumprindo e influenciando as suas funções da melhor maneira possível.
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