sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Cinza #26
Criar. Medo. Todas as palavras resumem-se a esta dualidade. A esta dor conjunta que nos retrai e leva a sítios desconhecidos da nossa mente que presa grita sem voz nos cantos da nossa personalidade agrilhoada. Porque sinto, sem sentir, sem gostar, gostando? Perco-me nos braços da noite impessoal à minha espera. Somente à minha espera... Desespero!
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Cinza #25 (ou continuação da experiência automática)
Sigo pela ponte atrás de um comboio movente cheio de linhas paralelas a decorá-lo. Perco o meu olhar no seu horizonte em busca de um insecto qualquer que esborrachado contra a parede fique a manchar toda uma vida de dedicação mecânica.
Dualidade da escrita
A escrita tem duas faces: a útil e a do prazer. Um pouco como a fábula da formiga e da cigarra.
De um lado está a formiga, metódica, rotineira e com uma obrigação perante o resto da comunidade. Um pouco como os e-mails, os ofícios, as actas, os memorandos, os artigos, as notícias e as newsletters. Textos em que nos é dado um prazo obrigatório para cumprir, em que se segue um processo pré-estabelecido e que se acaba por encaixar numa estrutura pré-definida. Aqui a urgência e a clareza superam o tempo de leitura do leitor e a complexidade da comunicação.
A formiga sente essa pressa e a necessidade de se movimentar objectivamente. Um dia de Sol após uma semana de chuvas tem de ser suficiente para limpar o formigueiro e procurar comida para armazenar.
No outro lado temos a cigarra, sonhadora, realizada e dedicada. Os poemas, os romances, os guiões surgem a partir do sonho do escritor, de uma inspiração (seja uma sequência de pensamentos ou o sopro da nossa musa). A ideia realiza-se através do acto físico da escrita, preenche a pessoa à medida que escreve, nutre uma necessidade básica do interlocutor. Porém, é exigente e "obriga" o escritor a dedicar-se.
A cigarra pode não amealhar para o futuro, mas na sua alegria constante e na sua necessidade em partilhar a sua arte anima as formigas que trabalham e entretém-nas no seu descanso.
No fundo, ambas necessitam uma da outra. Só o equilíbrio entre a escrita útil e a do prazer pode realizar completamente um escritor. A formiga disciplina a cigarra e esta última inspira a primeira.
Por exemplo, uma notícia pode parecer, à partida, uma coisa repetitiva, pois é transmitida por diversos órgãos de informação. Mas aí a cigarra pode ajudar a formiga, ao procurar uma diferença no quotidiano (nem que seja ela a provocar, ao criar um artigo a partir de um pormenor), na inclusão de um fragmento único (como uma descrição ou uma perspectiva diferente de um assunto já muito batido).
Outro exemplo é a necessidade de se criar um hábito e uma rotina para se poder criar uma obra como um romance. Diversos escritores afirmaram a importância de se sentarem frente a uma folha em branco, à mesma hora, todos os dias. No fundo, este ritual dá segurança à cigarra, dá-lhe uma base psicológica para poder criar.
Quando olho para escrita, relembro-me sempre de uns velhos desenhos animados onde a cigarra tocava o seu violino para as formigas que dançavam ao som da sua música. Quero acreditar nessa imagem, em que ambas comungam do mesmo ritmo, cumprindo e influenciando as suas funções da melhor maneira possível.
De um lado está a formiga, metódica, rotineira e com uma obrigação perante o resto da comunidade. Um pouco como os e-mails, os ofícios, as actas, os memorandos, os artigos, as notícias e as newsletters. Textos em que nos é dado um prazo obrigatório para cumprir, em que se segue um processo pré-estabelecido e que se acaba por encaixar numa estrutura pré-definida. Aqui a urgência e a clareza superam o tempo de leitura do leitor e a complexidade da comunicação.
A formiga sente essa pressa e a necessidade de se movimentar objectivamente. Um dia de Sol após uma semana de chuvas tem de ser suficiente para limpar o formigueiro e procurar comida para armazenar.
No outro lado temos a cigarra, sonhadora, realizada e dedicada. Os poemas, os romances, os guiões surgem a partir do sonho do escritor, de uma inspiração (seja uma sequência de pensamentos ou o sopro da nossa musa). A ideia realiza-se através do acto físico da escrita, preenche a pessoa à medida que escreve, nutre uma necessidade básica do interlocutor. Porém, é exigente e "obriga" o escritor a dedicar-se.
A cigarra pode não amealhar para o futuro, mas na sua alegria constante e na sua necessidade em partilhar a sua arte anima as formigas que trabalham e entretém-nas no seu descanso.
No fundo, ambas necessitam uma da outra. Só o equilíbrio entre a escrita útil e a do prazer pode realizar completamente um escritor. A formiga disciplina a cigarra e esta última inspira a primeira.
Por exemplo, uma notícia pode parecer, à partida, uma coisa repetitiva, pois é transmitida por diversos órgãos de informação. Mas aí a cigarra pode ajudar a formiga, ao procurar uma diferença no quotidiano (nem que seja ela a provocar, ao criar um artigo a partir de um pormenor), na inclusão de um fragmento único (como uma descrição ou uma perspectiva diferente de um assunto já muito batido).
Outro exemplo é a necessidade de se criar um hábito e uma rotina para se poder criar uma obra como um romance. Diversos escritores afirmaram a importância de se sentarem frente a uma folha em branco, à mesma hora, todos os dias. No fundo, este ritual dá segurança à cigarra, dá-lhe uma base psicológica para poder criar.
Quando olho para escrita, relembro-me sempre de uns velhos desenhos animados onde a cigarra tocava o seu violino para as formigas que dançavam ao som da sua música. Quero acreditar nessa imagem, em que ambas comungam do mesmo ritmo, cumprindo e influenciando as suas funções da melhor maneira possível.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Escrever
Porque escrever é tão difícil? Reformulo: porque assumir um compromisso para escrever é tão difícil para mim?
Escrevo desde pequeno (como toda a gente), conto histórias a mim próprio e a outros desde que me conheço (OK, minto, porque a minha personalidade não me deixa assentar em características padrão e constantes que me levem a concluir que me conheço).
Porém... continuo a resistir a este chamado. Talvez por vergonha, por pensar que a escrita e o que escrevo tem de ser perfeito, apesar de a minha profissão nestes últimos oito anos ser à base da escrita.
Em várias folhas soltas, de guardanapos, de envelopes, de páginas de cadernos e de blocos de notas (para não falar na imensidão da minha cabeça) e até algumas experiências goradas de blogues (Comunidade das Cinzas, versão Sapo e em escrita automática, e Pai em Casa), espraiei as minhas dúvidas, as minhas inspirações e os meus desejos.
Nas páginas das revistas, jornais e sites para os quais trabalhei escrevi notícias, críticas, reportagens, especiais, editoriais, artigos de fundo, opiniões,etc, etc e etc... Páginas e páginas de bom, de mau, material. Uns inspirados, outros concisos e algumas vergonhas, mas tudo parte de uma profissão e de uma aprendizagem.
Confesso que me cansei desse tipo de escrita ao metro, por encomenda. A pressão, o stress, a ditadura dos objectivos e dos prazos, extraem o tutano da nossa criatividade, deixando-nos com fórmulas e estruturas que nos aguentam em alturas de maior correria.
A qualidade acaba por ser uma sorte, um bónus caído de um esforço enorme à custa da vida familiar e pessoal. A profissão da escrita esgota-nos, expreme-nos e leva-nos à loucura quando não correspondemos às suas exigências ou quando... paramos.
O projecto onde estou envolvido é diferente. Depois dos 30 descobri que até dou para vendas e que me ofende intelectualmente o trabalho repetitivo de introdução de dados num backoffice de um site (sem ofensa para quem tem de fazer este tipo de trabalho, claro. Uma pessoa tem de se desenrascar como pode).
Falta o desafio e o estímulo de querer sempre melhorar a maneira como se escreve, o processo de escrita e a estimular a criatividade. No fundo, escrever é pensar e agora que não escrevo habitualmente, sinto-lhe a falta, sinto-lhe a sede...
Poderia escrever no caderno que sempre me acompanha e com a caneta de tinta permanente que me fez redescobrir o gozo de escrever à mão. Porém, aquela urgência de querer escrever tudo perfeito à primeira afoga-me logo no momento em que penso escrever.
A resistência (versão Steven Pressfield, em A Guerra da Arte) ocupa todas as posições livres das minhas tropas, introduz um espião nas minhas fileiras e dissuade-me a explorar melhor a ideia que acabei de ter.
Graças a isso não penso, não discorro, não vivo. Nesses momentos o meu coração deixa de bater e entrega o seu trabalho ao acaso. A minha mente atordoa-se com uma qualquercoisamina e deixa de se preocupar. A infelicidade cresce em mim.
Nesta dor sinto-me só. Nesta luta penso que ninguém sofre o mesmo que eu. Mas quando abro o Diário de Etty Hillesum, vejo que há outros que sentiram o mesmo, só faltava o impulso adequado.
Começo hoje aqui um blogue que espero ter um caminho diferente e mais longo que as minhas antecedentes experiências. Melhor: começo aqui um verdadeiro blogue sobre escrita, os seus dramas e alegrias, com poemas e desvarios, assim como algumas dicas essenciais aprendidas com a experiência e com várias leituras.
Começo aqui hoje o meu terceiro blogue em que recupero este nome capturado num poema do poeta surrealista António Maria Lisboa, do qual não me lembro o nome, nem o encontro na Internet (eu sei que existe um livro da Assírio e Alvim, mas não o cheguei a comprar... :-( ).
Começo aqui hoje uma longa aventura pelo mundo que me fascina e que agora vai-se revelar perante a minha caminhada.
Escrevo desde pequeno (como toda a gente), conto histórias a mim próprio e a outros desde que me conheço (OK, minto, porque a minha personalidade não me deixa assentar em características padrão e constantes que me levem a concluir que me conheço).
Porém... continuo a resistir a este chamado. Talvez por vergonha, por pensar que a escrita e o que escrevo tem de ser perfeito, apesar de a minha profissão nestes últimos oito anos ser à base da escrita.
Em várias folhas soltas, de guardanapos, de envelopes, de páginas de cadernos e de blocos de notas (para não falar na imensidão da minha cabeça) e até algumas experiências goradas de blogues (Comunidade das Cinzas, versão Sapo e em escrita automática, e Pai em Casa), espraiei as minhas dúvidas, as minhas inspirações e os meus desejos.
Nas páginas das revistas, jornais e sites para os quais trabalhei escrevi notícias, críticas, reportagens, especiais, editoriais, artigos de fundo, opiniões,etc, etc e etc... Páginas e páginas de bom, de mau, material. Uns inspirados, outros concisos e algumas vergonhas, mas tudo parte de uma profissão e de uma aprendizagem.
Confesso que me cansei desse tipo de escrita ao metro, por encomenda. A pressão, o stress, a ditadura dos objectivos e dos prazos, extraem o tutano da nossa criatividade, deixando-nos com fórmulas e estruturas que nos aguentam em alturas de maior correria.
A qualidade acaba por ser uma sorte, um bónus caído de um esforço enorme à custa da vida familiar e pessoal. A profissão da escrita esgota-nos, expreme-nos e leva-nos à loucura quando não correspondemos às suas exigências ou quando... paramos.
O projecto onde estou envolvido é diferente. Depois dos 30 descobri que até dou para vendas e que me ofende intelectualmente o trabalho repetitivo de introdução de dados num backoffice de um site (sem ofensa para quem tem de fazer este tipo de trabalho, claro. Uma pessoa tem de se desenrascar como pode).
Falta o desafio e o estímulo de querer sempre melhorar a maneira como se escreve, o processo de escrita e a estimular a criatividade. No fundo, escrever é pensar e agora que não escrevo habitualmente, sinto-lhe a falta, sinto-lhe a sede...
Poderia escrever no caderno que sempre me acompanha e com a caneta de tinta permanente que me fez redescobrir o gozo de escrever à mão. Porém, aquela urgência de querer escrever tudo perfeito à primeira afoga-me logo no momento em que penso escrever.
A resistência (versão Steven Pressfield, em A Guerra da Arte) ocupa todas as posições livres das minhas tropas, introduz um espião nas minhas fileiras e dissuade-me a explorar melhor a ideia que acabei de ter.
Graças a isso não penso, não discorro, não vivo. Nesses momentos o meu coração deixa de bater e entrega o seu trabalho ao acaso. A minha mente atordoa-se com uma qualquercoisamina e deixa de se preocupar. A infelicidade cresce em mim.
Nesta dor sinto-me só. Nesta luta penso que ninguém sofre o mesmo que eu. Mas quando abro o Diário de Etty Hillesum, vejo que há outros que sentiram o mesmo, só faltava o impulso adequado.
Começo hoje aqui um blogue que espero ter um caminho diferente e mais longo que as minhas antecedentes experiências. Melhor: começo aqui um verdadeiro blogue sobre escrita, os seus dramas e alegrias, com poemas e desvarios, assim como algumas dicas essenciais aprendidas com a experiência e com várias leituras.
Começo aqui hoje o meu terceiro blogue em que recupero este nome capturado num poema do poeta surrealista António Maria Lisboa, do qual não me lembro o nome, nem o encontro na Internet (eu sei que existe um livro da Assírio e Alvim, mas não o cheguei a comprar... :-( ).
Começo aqui hoje uma longa aventura pelo mundo que me fascina e que agora vai-se revelar perante a minha caminhada.
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